
saí de lá, deixando ele pra trás sem pensar, sem querer, ouvindo a constatação do óbvio na cabeça – tô fodida. Fo-di-da – acendi um cigarro, ótimo pra compor o kit básico do cinismo
mas ao final da tragada, nem o arrepio da nicotina segura a onda de ternura – e se for um sinal? – deus, eu já queria encontrar significados ocultos em coincidências. O livro sobre a bancada, a história das cartas do baralho, a tatuagem, o tarô, a coleção. Nada daquilo estava relacionado, mas eu começava a tecer as [entre]linhas e referências, compondo um acaso. Ou não.
parei num café, mais um cigarro. Iria embora no dia seguinte. Sem fotografias, perspectivas de voltar – porra, estava com medo de quê? – mas sabia, sem sequer articular em palavras o pensamento que aquele livro seria um bumerangue, apontar o dedo com outros três virados pra mim, um quase feitiço. Se ele lesse e encontrasse mensagem cifrada disfarçada engarrafada na história.
era possível que ele não lesse, lesse e não gostasse. Restaria o livro esfíngico na estante, o coringa na capa rindo do meu tiro pela culatra, a desimportância dada ao que poderia ser uma gentileza ou um convite pra vertigem. Era bobo, mas poético. E tinha acabado de aprender a respeitar o ridículo do meu romantismo que não ousa dizer o próprio nome. Enfim, eu estava fodida. Só faltava mesmo abraçar o capeta. Opa, não. Quem faz isso é Madalena.
na pior das hipóteses, teríamos boas recordações, um livro não-lido e 400km de distância. Eu jamais saberia (se houvesse) consequências da minha tentativa de delicadeza.
só isso, simples. Terminei o café, flanei um pouco mais pela avenida, tanto pra ver, mas de certa forma algo atrás dos meus olhos continuava lá. Voltei. Ele me esperava no mesmo lugar ao lado da literatura estrangeira
entre a corrida de dedo entre as páginas pra subir o cheiro do papel – cometer ou não, dedicatória? – a patada extrema de ternura, a evidência de que havia algo mais, que eu não queria simplificar, circunscrever ou tentar definir antes da hora.
A sensação era de que tudo era possível, por mais que soubesse que não. O que houvesse, teria limite, mas antes era preciso o big bang e a expansão. Ou melhor, desaceleração da expansão porque o processo havia começado, afinal, estava eu, parada em frente ao balcão de embrulhos pra presentes, o que jamais arriscaria antes de um começo
estava dentro, sem saber se estava só ou se ele também tinha embarcado. Mas ainda não queria saber do quê. Podia acabar amanhã. Podia 489 coisas, mas ora, só tinha um jeito de saber
e tinha chegado a hora de parar de fugir descaradamente de qualquer coisa que ameaçasse me tirar do meu centro e do meu dentro também.
***
o livro passou o resto do dia incômodo na minha bolsa. Assim que ficamos a sós, antes de começarmos a que seria (ou não) ‘a última noite’ disparei
_ é pra você
_ obrigado!
_ cê não vai abrir? ah, melhor! adivinha qual é?
_ é um Thompson?
_ nããão
_ não é um Bukowski.
_ também não, esses são óbvios. É um livro que só eu poderia te dar
_ é o dia do coringa?
_ ééé, abre
e lá estava o sorriso esperado, o beijo e veio então a fatídica pergunta
_ e a dedicatória?
_ ah, não escrevi – tava esperando pra ver se você ia gostar.
_ adorei. E quero dedicatória.
acabei às três da manhã sentada na cama olhando o livro com meia dúzia de trocadilhos indecentes latejando na cabeça, pra disfarçar o tom. a Doçura, putaquepariu. Inegável, inescapável e eu não estava acostumada a deixar fluir sem inventar um caminho inviesado
despejei metáforas, um pouco de graça sobre o subtexto – estou fodida, coringa – você é inesperado, subitamente querido, estou indo embora, mas não quero que você vá, desista, se desinteresse e como isso não se pede, como um beijo ou qualquer espécie de afeto, esse presente é uma insinuação, um convite, uma charada
enfeitada de condicionais, mas trazendo a constatação: instaurou-se o caos, desfez-se a velha ordem, embaralharam-se as jogadas. E, agora, quem vai pagar pra ver?
***
enquanto ele lia foram os minutos mais longos do final de semana. Mentira. Os na rodoviária demoram mais, mas perderam o peso. A questão era a exposição sutil, a minha letra despida, o presente, o texto, as supostas últimas horas. Eu estava absurdamente vulnerável, segurando a covardia – vamos lá, garota, você não tem nada a perder, se encontrou faz pouco tempo.
e ele corou, riu, disse que adorou e como não tinha motivos pra mentir, nem eu pra duvidar, acreditei.
***
da última vez que nos vimos, o livro estava na cabeceira, estacionado e intercalado com uns outros dois – ele também lê dois, três ao mesmo tempo. Fiz draminha porque ele não terminou, são mais pela mensagem engarrafada que era um capricho poético, uma vaidade deliciosamente desimportante. Adorava o livro, a história, a estrutura da narrativa, o desfecho – o bumerangue me atingiu antes de ser lançado, e tinha voltado, de qualquer maneira, enfim
estava dentro e ele também, eu nem me sentia mais tão fodida.

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