Correspondência X
julho de 2009
Morganíssima!
há tempos devo carta e me cobro por isso. Foram muitas vezes em que comecei tentativas de correspondência, em vão.
Os rascunhos pálidos e desencontrados tinham verdade a meu respeito, mas além do pudor de me mostrar da certa forma – que eu sabia passageira – faltavam forças para levar a carta até o fim. As instabilidades acalmaram, fadinha, e talvez o necessário para conseguir escrever novamente fosse a serenidade: aprender a esperar algum sossego ou aceitar o incerto como parte da vida e, assim, não me incomodar mais com.
Não pergunte qual espécie de clareza me veio – não saberia dizer. Depois de longo período de desacontecimentos, me fechei. Porque havia algo muito errada na minha busca, uma pressa de vida que só podia me levar ao perigo e não devia atrair ninguém pr’aquela merda junto.
Entrei numa de eu comigo mesma. E os livros, garrafas de Martini, jazz, blues, mpb, medo, lágrimas, desespero, escrita (que não é correspondência), planos traçados e desfeitos, tentativas de paciência, mudanças de rotina, a recuperação da fé, o retorno à poesia e putaquepariu, Morgana, como é difícil a gente aprender a se suportar quando está triste. Como é complicado se perdoar por não poder ser tudo o que nos pensamos capazes de, quando queremos ser maiores do que somos agora.
E de repente a vida entrou num ritmo intenso de trabalhos e o tempo cada vez mais raro pra pensar nas coisas todas, até que eu me vi vivendo, simplesmente, deixando dias escorrerem e pequenos aconteceres me alimentassem outra vez a necessidade de delicadeza. Foi de fora pra dentro, dessa vez. Inesperadamente, a importância de colocar minha força em algo aparentemente bobo o que me tirou de um pântano de preocupações desnecessárias e me conduziu a um ritmo de cotidianeidades que me permitiu conjugar o aprendido nessa fossa silenciosa de incertezas quanto a tudo. Maldito Descartes e seu gênio maligno.
Você tem, obviamente, fadinha, todo o direito me mandar à merda, reclamar da minha vergoinha, da aparente lucidez disfarçando necessidade de colo e tudo o mais. Mas não foi um surto. Eu sabia que estava desencontrada, que não estava plena das minhas forças e graças e encantos – a questão era não saber como retomá-las. E é o tipo de coisa que só de pode fazer sozinha, não faz sentido para mais ninguém e só se pode falar a respeito da coisa passada, porque do olho do furacão, como se fala do que se vê para quem está fora?
Lucía havia me contado de uma fase assim em sua vida e eu não fazia idéia de como. Sempre achei ter a ver com o lado bruxa da nossa pequena, tudo o que ela encarou entre dramas familiares e a travessia pelo vale da sombra morte. Cheguei a dizer a ela que de certa forma, estamos envelhecendo e talvez enxergar a vida com menos passionalidades fosse consequência do processo, nem é isso. Ela me falava de alcançar um conhecimento de si, uma espécie de humildade que nos permite distanciar das coisas e aceitar os limites. Hoje acho que alguns passem por isso pela dor, outros numa boa e tenha quem nunca busque isso. Enfim, os caminhos. E sem levantar bandeiras, apontar rotas, nada disso. Apenas te derramo as conclusões, fadíssima, a cumplicidade garante nossos entendimentos.
No mais, tenho até novidades – a carta inteira até agora é provável prelúdio. Faço planos de voltar a estudar em breve, posto que calmaria e a paciência se converteram em vontades de me mexer e me levaram a uma rota onde. A perspectiva é animadora, por mais que se sacrifiquem os sábados, que convenhamos, nunca guardei.
O mais surpreendente, de fato, Morgana, é esse homem. Improcurado, inesperado e subitamente querido. Não baterei a ficha, que isso é assunto de mesa de bar (a técnica de alimentar curiosidades como pretexto de marcarmos logo). Estamos nos conhecendo. Mas, das coisas dizíveis, posso admitir que tenho sido cuidadosa. Refreio os vício defensivos e me percebo sendo doce sem me preocupar como ele interpreta minha delicadeza.
Às vezes, tenho vontades más de despejar sobre ele retalhos de passado, remendados pela visão subterrânea mais desconfiada. Contar-lhe que sou toda construída em torno de histórias de amor e morte e ausência e poesia, nascida sob influências de marte e plutão, mas isso não me torna triste ou sombria, nem me impede a invenção de felicidades. Mas seria precipitação, seria mostrar o lado negro, esperando que ele me desquisesse e partisse. Seria a pretensão de testá-lo procurando motivo sabotador para me acomodar à velha solidão.
Mas dessa vez não. La soledad es una vieja conocida, Morgana, você sabe. E me vejo disposta ao friozinho de deixar a tal zona de conforto (de confronto?). Não só porque ele me parece a fim de estender um abraço contra ventos gélidos de terras desconhecidas – mas porque vem por estradas onde jamais passei. A tranqüilidade com a qual ele convive com as próprias cicatrizes, o cuidado dele em não me subestimar me ajudam não entrar na onda do meu instinto fugitivo.
Tenho a sensação de que se lhe mostrasse o que há de mais tolo e frágil e desesperado em mim, ele nos serviria dois cowboys disparando – entendo, baby, já vi pior, já fui caótico. Reação que, noutra época, armaria meu gatilho sabotador convocando todas as neuroses possíveis. No entanto, como abandonei parte delas na opção pela leveza, o que me vem agora é a certeza de que é preciso deixar que isso entre nós aconteça.
E tudo o mais é o bom e velho vir-a-ser. E tenho sido grata à vida pelas possibilidades. A questão agora é me permitir, por mais desacostumada que eu esteja a – e, Morgana, tem valido a pena. Contra todas as incoerências aparentes, aqui dentro as coisas tem, enfim, feito sentido.
beijos d’ amiga inconstante um tanto quanto sumida,
mas sempre cheia de amor
Elisa

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