05 Fevereiro 2010

outros tempos



_você tá ficando é velha

_ todas nós estamos, mas não finjo que não – nem fico desesperada com isso

_ iiiih, que veneno, hein, Madá

_ ué, e por acaso você tá rejuvenescendo e não divide o segredo?

_ descenecessário, nêga

_ cara, qual é a tua? só porque não tô afim do esquema boate de playboy, cê vem com esse papinho, acha mesmo que vou mudar de idéia com um argumento desse?

_ também não precisa engrossar

_ e você não precisa forçar, né

_ mas é meu aniversário!

_ olha só, lembra quando marquei meu aniversário na Lapa e você não foi? também teve o ano em que fiz um almoço lá casa e você também não apareceu e nem por isso fiquei cobrando

_ não pude.

_ ééé, mas reclamou bastantes de como a Lapa é longe, blábláblá. Nem tô reclamando, tô avisando que não vou

_ e nem vai fazer um esforço pra prestigiar a amiga?

_ querida, você quer reunir os amigos pra se divertir, né? então, pronto – não vou porque não é a minha vibe. Cansei de hip hop, maluco que chega pegando pelo braço e a mulherada na afliceta catando o primeiro mala bonitinho pra não voltar pra casa sem beijo na boca

_ até parece que cê nunca curtiu uma noitada dessas

_ então, curti, mas hojendia não tô mais afim – fora que nunca foi minha night preferida, por mais que fosse e me divertisse, não era aquela coisa ‘ah, como quero ir uma farra de playboy hoje’

_ porra, Madalena, mais uma não vai matar

_ não, mas vai me deixar cansada, me sentindo deslocada e mal por fazer algo que não me dá tesão só pra mostrar que posso passar quatro horas tentando abstrair o entorno

_ nossa, do jeito como cê fala, parece horrível

_ deixa te explicar uma coisa: todo mundo tem a sua tolerância. tem gente que curte uma muvuca, um calor, um empurra-empurra a vida inteira. outros não. ainda topo uma multidão, mas tem que ter compensação – a música ser boa, não me encherem o saco, essas coisas. na tua comemoração não vai rolar

_ e tu fala isso assim na minha cara, na maior?

_ e você fica aí me criticando, sem ver que se você me chamasse pra tomar um chop já tava lá. Mas você prefere que eu vá na boate só pra fazer quórum: a gente não vai beber e bater papo, vai ser só o tunt-tunt-tunt e a mulherada caçando

_ o teu problema é que cê não tá mais na pista.

_ ai, cê tem que arrumar um problema, hein, mulher, que coisa.

_ você não era assim, pô!

_ meudeus e por acaso eu tenho que ser sempre a mesma? continuar a mesma na farra, bebendo, enrolando os carinhas, me metendo com os loucos, ególatras, vampiros, porque sair do jogo é envelhecer, ficar chata, emburrecer, como se a noite não cansasse o ser humano, porra, que me conste eu continuo a mesma doida sarcástica

_ não entendo sua revolta, cara, tu desencalhou e ainda reclama

_ vem cá, não tem muito tempo que cê tava namorando. lembra quando as amigas solteiras se queixavam que você sumiu, mudou, encaretou? é isso que cê tá fazendo comigo

_ mas você tá recusando ir no meu aniversário!

_ tô, e é mais um dos motivos pelos quais eu vou pro inferno.

31 Janeiro 2010







Há muito quero te escrever. Não sei como. Escrevendo, como é minha voz pra você? É o mesmo tom meio rindo com que atendo o telefone quando te sei outro lado? Talvez o quase sussurrado com que falo quando estamos na cama? É imprevisível e você pode me achar séria ou meio triste, nesse preto-no-branco da coisa estanque na página, quando nunca é bem assim. Parece, mas não.

é possível confundir porque você não me vê escrever. Falta esse costume de me assistir ouvir música, remexer livros e cadernos atrás de um tom, sentar ao PC e entrar nesse silêncio que adia o mundo. Você estranha a calma do descanso – como veria então esse instante de concentrar, perseguir uma emoção e fazer dela matéria, e sair cansada e renovada quando termino. Você saberia que triste é o texto? Eu venho antes e depois disso, sou de uma serenidade toda outra.

quero escrever sobre nossa felicidade delicada e simples – e como às vezes tenho a impressão de que essa relação me pede uma maturidade que ainda não tenho, de tão acostumada a ser sozinha, mas ainda assim, tenho repensado minhas posturas. Esse tênue equilíbrio de estar junto é muito novo, mas não sinto medo. E não temer é quase uma força.

quero, um dia, falar da sua delicadeza. De como as suas atenções fazem com que me sinta acolhida e como isso flui sem parece premeditado e cheio de intenções. Não que nós jamais tenhamos usado um truque ou dois, natural, quem se arriscaria a por todas as cartas na mesa tão rápido? mas gosto da maneira como você é atento sem que isso te faça parecer o tipo de pessoa que cerca querendo atenções e elogios. É uma tranquilidade que me atrai.

talvez falasse desse relance de meninice no seu olho, porque sabe rir de si mesmo, de mim. E como isso te faz bonito, de um jeito inexplicável, até porque pouco importam as definições, você tem uma virilidade certeira, as mãos firme, o cheiro, que me atiça.

poderia dizer como me alegra sentir o seu respeito pelo meu espaço, minha história e a forma como vou tentando conduzir a vida, dentro da máxima sartreana de que somos o que fizemos com o que a vida fez de nós. Às vezes penso se semelhanças ajudam nesse sentido, mas tenho a impressão de mesmo nas diferenças, sabermos que é preciso exercitar a tolerância. E vamos tentando.

quem sabe um dia cometa uma carta, um poema. Sobre as outras nuances a fazer parte da minha vida desde a sua chegada. Sobre o fato de ter percebido que preciso ser mais cuidadosa, com nós dois. Num dia inspirado, posso me arriscar desenvolver essa ideia de que o amor flerta com o indizível e tudo o que te escrevo não é mais que uma carícia, tentativa de te afagar por trás dos olhos, quando as mãos não te alcançam ainda, tão fácil quando me vêm o desejo e a saudade.

ainda não sei se é da ferrugem em meus dedos, se é a falta de prática em escrever tendo você do outro lado, alvo, e escrever pra te acertar, me fazer mais perto despejando palavras para enganar a distância. Mas um dia começo, acordo assim entre a coragem e a saudade e a espera, ponho um trilha sonora caprichada e

28 Janeiro 2010

questões de gosto II



_ mas também né, Elisa, estava te faltando se meter com um homem de verdade.

_ peraê, também não é assim,vai. Posso ter me metido com sujeitos enrolados, indecisos, aqueles caras que acham muito legal uma menina descolada e depois quando estão com você percebem que seria mas legal se você parecesse a princesinha, ou a mãe dele. Mas não acho que isso vá contra a machice dos caras.

_ porra, você ainda defende?

_ cara, na boa, não é porque estou na boa que acho que vou sair por aí cuspindo nos pratos que comi.Ele faz com que me sinta desejada, querida sem ser grudento ou cheio de nhénhénhé, não me faz ciúmes, fala o que sente, o que o incomoda e isso me deixa muito tranquila. Mas acho que é questão de maturidade, ele já quebrou muito a cara, aprendeu – é bem possível que os caras da minha idade fiquem mais malandros com o tempo, ou não – o que também não me importa

_ ah, não sei não, você sempre se meteu com esses caras sensíveis, ator, jornalista, publicitário, cineasta, bando de ególatras.

_ você é que se mete com esses caras machistas, cheio de merda.Uns caras que entram numa que se você deu pra três antes dele tá muito rodada

_ ah, não é bem assim

_ não? e aquele policial babaca com quem você saía que falava de mulher nas suas costas como se fosse lixo?

_ sério? não soube disso, mas depois descobri que o cara era mó caozeiro.

_ então, fiquei chocada, o cara falando altos absurdos, que era casado, mas comia as mulheres que dava mole pra ele mesmo, que tem mulher que não pode ver uma farda, mesmo sabendo que ele é casado quer dar mesmo e ele come. Um nojo, e você lá toda toda comendo aquela besta. Posso não ter pego os caras mais apaixonados por mim na vida, mas pelo menos nenhum nesse nível

_ mas aquilo foi só tara, amiga, fantasia. Depois que fiquei sabendo que ele era casado nem quis mais saber dele, ele até tentou, mas nem quis saber

_ de qualquer maneira, acho que você fala sem saber, fala como se todo cara fosse neurótico porque faz análise, lê, é culto, porra, todo mundo tem problemas. Tem homem compete com mulher direto, outro dia veio uma amiga me contar que o ex-namorado dela ficou o-fen-di-do porque ela estava fazendo a segunda faculdade quando ele não tinha terminado a primeira. Sabe o que é isso? o cara ficar frustrado porque a mulher toca a vida dela quando ele não se resolve? ah, vá se foder

_ é sei que tem essas coisas, caras que encucam quando a mulher ganha mais e tal. Só que acho que você não quer admitir que você andava com uns caras mais ou menos.

_ a questão não é de admitir que os caras são mais ou menos. O lance é que nenhum desses caras estava afim de mim o tanto quanto eu deles, ou só se ligaram em mim quando a coisa tinha desandado, ou eram inseguros e faziam joguinho em que eu caía porque era boba, insegura, teimosa e orgulhosa. Agora, não vou entrar numa de pintar a caveira que eu só saía com babaca, porque não é isso faz o meu namorado maravilhoso. Ele é ótimo pelos méritos dele, é cheio de defeitos também, eu tenho um gênio ruim do cacete e assim a gente se dá bem, se diverte, pronto, só isso.

_ bom, o mais importante é que vocês tão felizes juntos, né?

_ então, que coisa, pra quem gosta dos sujeitos ‘mais machos’ vocês tem tantos problemas quanto eu tinha com que você acha que não prestavam. De repente o que ta te faltando é um grisalho pra "resolver" a tua vida

09 Janeiro 2010

fim de tarde em botafogo



ou 'por um maniqueísmo pragmático',
para M, pela sua volta



_ é tão bom você ficar com cara que realmente quer ficar com você. Um pra quem você não precise estar ali disponível, mostrando interesse ou tomado iniciativa enquanto ele tem dúvidas. Um cara que quer você, que sabe que quer, que se não quer também não fica elocubrando

_ ééé, tenho descoberto isso. Tempo atrás gastava energia com caras que estavam comigo enquanto “algo melhor” não aparecia, ou com caras que me queriam, mas eu não tinha o mesmo tesão. E isso me deixava mal, sei lá, me sentia desonesta

_ quando os dois querem a mesma coisa, flui tão fácil. Tirando os primeiros entendimentos, depois que a coisa fica clara, você não precisa mais se preocupar com hesitações – se o cara quer transar com você, ele demonstra

_ pois é. Tudo bem o sujeito ter dúvidas, mas essa empatação pra manter autoestima em dia é caído. Tanto pra homem como pra mulher. Outro dia tava pensando nisso e vendo que tem essa tendência de ficar amiga dos caras antes ou de acabar de rolo com os amigos e a gente acha que as afinidades facilitam, mas depois vai descobrindo que o sujeito é neurótico, aí fica ali toda compreensiva, quando na verdade está sendo cozinhada

_ tem lógica. Você acha que o cara é legal e acaba aceitando certas coisas, achando que em algum momento vão se entender

_ ééé, mas tenho pensado que a gente perde muito tempo pra notar que esses caras são errados

_ hahahaha, errados? E você consegue reconhecer os caras errados?

_ bom, depois de um tempo a gente consegue identificar uns sintomas básicos. Depois de tantas furadas, cheguei a características pra manter longe, mesmo em caso de recaídas e ficadas ocasionais pra evitar o efeito kriptonita

_ é uma tática.

_ foi difícil, mas pelo menos sei que agora sosseguei com um que tem defeitos que não estão na minha lista crítica

_ ah, você não tem uma lista. Fala

_ são os machistas, os ególatras, os pegajosos, os castradores e os brochas. mas ainda não sei se os amarradores de anjo da guarda são uma categoria a parte ou uma subdivisão dos brochas

_ dos brochas?

_ não os que brocham eventualmente por cansaço ou stress, acontece. Tô falando dos que falham com freqüência, ejaculadores precoces, esses caras que precisam de tratamento. Vai dizer que um cara que fica se fazendo de desentendido quando você quer trepar com ele ou te come de um jeitinho burocrático não está nesse esquema de ineficiência?

_ hahahaha, é um ponto de vista.

_ talvez esteja muito exigente porque arrumei um que deixa tudo muito claro. De repente virei uma filhadaputa sortuda com um namorado que bota a cerveja na geladeira pra me esperar. Mas sei lá, vejo o quanto tempo e energia gastei, nossa

_ talvez você precisasse disso pra dar valor ao que tem agora

_ hum, não sei. Eu teimei bastante com quem não devia, por orgulho.

_ com os errados?

_ aham, do tipo que te come como se fizesse um favor. Vai, um cara desses pode ser uma pessoa sensacional, mas se você deixa claro que tá afim e ele entra numa dessas, não pode estar certo

07 Dezembro 2009

da minha ausência temporária



por que alguém sairá ferido dessa história, invariavelmente.

mas o que te pergunto é de onde vem esse pudor, disfarçado de auto-preservação que vem te impedindo de tentar. E não, não é o amor, dessa vez. Quantas vezes você achou que se entregar te tiraria o rumo pra bem depois entender que se se perdia era por não ter aprendido a lidar consigo mesma.

não é o sentir que te domestifica, te propõe essa cautela. Os comparsas sabem muito bem como você não se cabe – e qualquer homem que tenha chegado perto o suficiente pra frequentar a sua cama está avisadíssimo de como você de se apossa, digere e devolve ao mundo. Dramááático, ele disse – sem saber o quanto já foi e pode ser muito pior.

(ao menos você já aprendeu a não ter a pretensão de saber o outro atribuir a ele as nuances sua loucura, reduzindo assim a injustiça, mas ainda assim cometendo a crueldade de fazê-lo de pretexto pra falar)

o problema é: quanto mais você evita, mais a coisa te volta terrível. Dores pelo corpo, insônia. O pesadelo recorrente em que te caem os dentes. Camadas de desprezo por si mesma, por esses sorrisos inexpressivos que você precisa aceitar – pura educação. São sempre mais dedos do que pessoas que estão realmente aí, e você ainda sai na vantagem, mas ainda assim, é a velha questão se repetindo: até que ponto o cinismo é o que te salva e o que te fode? onde fica o limite dele, que apesar dos anos você só reconhece depois de extrapolar

se for verdade esse negócio de que passamos a vida inteira tentado responder às questões surgidas infância que ressoam em diferentes aspectos ao longo tempo – estará você sempre lidando com a ternura atravancada, a fragilidade da vida e a descrença fingida de que não importa

tá ficando chato esse negócio de você dizer que está difícil e que não sabe como, quando na verdade está com medo. De si mesma. Do que vai sair quando você atingir aquele limite em que a coisa começa a ganhar uma voz, ritmos próprios. É risível. Tudo bem, há autocobrança, o desgaste narrativo, as histórias se parecendo, afinal você está entre o amor e a morte e essas são as marcas secretas do teu nome ainda que você desdobre uma imensa paleta de cores

mas foram anos pra aprender que existem coisas das quais não se pode fugir. Essas que se é e não se pode abandonar sob risco de deixar de ser alguém e tornar-se uma farsa. E se você consegue se guiar por essa certeza em tantas coisas, na escolha dos seus amigos, do seu homem, como desconcentrar assim das tuas palavras? Em que momento o teu esforço de uma lucidez prática te afasta do que, tantas vezes, fez com que você conseguisse se suportar


escreve, escreve e sua alma já se perdeu.

Italo Calvino

em O Cavaleiro Inexistente